PONTOS E DESAPONTOS ORGULHOSAMENTE APRESENTA!!! BEN HARPER!!

 Há poucos artistas hoje cuja abordagem em relação à música seja tão solta quanto a de Ben Harper. Seu estilo vai de ritmos funk a folk, passando pelo blues sulino e arrepiantes riffs de guitarra. Algumas vezes ele foi acusado de ser eclético demais. Parte de seus fãs queria que ele fizesse um álbum todo de rock. Outros, que apreciam seu lado mais suave e acústico, perguntavam por que ele não fazia um disco como cantor e compositor. Os fãs de blues clamavam ouvir mais de sua famosa guitarra slide. A solução encontrada por Harper sempre foi fazer uma mistura de seus diferentes estilos musicais em uma tentativa de dar a todos um pouco do que os agrada.

Mas em Both Sides Of The Gun, seu sexto álbum solo de estúdio, ele surge com outra solução, bastante diferente. É um álbum duplo, contendo um disco de seu material mais pesado e ritmado e um segundo trazendo seu lado mais suave, brando. "É só pouco mais de uma hora de música, então não se trata de não editar meu trabalho ou megalomania de meio de carreira", ele diz. "A verdade é que com essas músicas os extremos estão mais polarizados do que já estiveram. Metade do álbum é tão cru e solto quanto tudo que já fiz e a outra metade é o meu mais introspectivo e intimista." As faixas claramente não acomodavam-se bem juntas em um disco. Elas demandavam ficar separadas. Ainda assim não é um álbum convencional, já que todas as 18 músicas teriam cabido confortavelmente em um único disco. De fato, Harper nem o chama de álbum duplo, mas de um disco contendo dois diferentes movimentos.

Harper cresceu em Claremount, a aproximadamente uma hora de carro de Los Angeles, e uma visita à loja musical que sua família possui ajuda a colocar sua ímpar mistura musical de folk, blues, soul, R&B, funk, gospel, reggae e rock em perspectiva. Originalmente administrada por seu avô, a Folk Music Centre and Museum, como é chamada, é uma caverna do Aladim de instrumentos musicais do mundo todo e era o playground de Harper. Enquanto outros de sua idade andavam de bicicleta ou faziam aeromodelismo, os brinquedos de Harper eram violões, sem mencionar a variedade de tambores africanos, sinos chineses e flautas indianas abundantes até hoje no Folk Centre. "Se você der uma olhada na loja, verá o que me fez ser o que sou", ele reflete. "As pessoas me dizem que é estranho o mundo todo estar presente em mim musicalmente. Para mim é estranho não estar nos outros, porque cresci nesse ambiente."

Além das influências folk, blues e country, como um adolescente negro crescendo na Califórnia dos anos 80, Harper também foi influenciado pelo cenário de rap e hip-hop de LA. O resultado foi que, quando ele saiu de casa e mudou-se para a cidade em 1990, não havia quase nenhum estilo ou gênero de música que já não tivesse absorvido. Depois de fechar contrato com a Virgin Records em 1993, seu álbum de estréia, Welcome to the Cruel World, foi lançado dois anos depois e recebido com muitos elogios. Seguiu-se a ele Fight for Your Mind, de 1995. Seu terceiro disco, The Will to Live, veio em 1997 e apresentou sua banda, os Innocent Criminals. Burn To Shine veio em 1999 e o set ao vivo, Live from Mars, em 2001. Seu quinto trabalho de estúdio, Diamonds On The Inside, foi lançado em 2003 e seguido um ano depois por There Will Be A Light, um álbum em parceria com os Blind Boys of Alabama. Com cada disco, tanto sua base de fãs quanto a ousadia de sua visão musical cresceu. Mas enquanto suas vendas de discos agora chegam a mais de dez milhões, ele tem assiduamente evitado o vazio mundo de celebridades, tanto que na época de seu último álbum, a Times publicou um artigo sobre Harper intitulado 'A estrela invisível'.

Agora vem Both Sides Of The Gun, um álbum que Harper classifica como seu mais satisfatório e bem arrematado set até hoje. Uma das razões para isso, ele diz, é o que aprendeu trabalhando com os veteranos Blind Boys of Alabama em There Will Be A Light. "Com o disco com os Blind Boys senti que havia crescido de forma sônica e criativa", ele diz. "Esse é o resultado de trabalhar com pessoas que fazem isso há 50 anos. Foi como ir à escola e aprender tudo de novo." 

Talvez mais forte que tudo seja sua raiva em relação ao que aconteceu em Nova Orleans, mostrada em "Black Rain", uma canção escrita e gravada espontaneamente no dia depois que o furacão Katrina varreu a cidade. "Se os EUA precisavam de um sinal de que seu governo não dá a mínima para seus cidadãos, esse foi ele”, ele diz. 'Me assustou até a morte e estava na hora de agir. Deixamos de lado a música em que estávamos trabalhando e o que está gravado é pura e absoluta raiva e desgosto. Nós criamos a faixa de bateria, acrescentamos as cordas e escrevemos as letras em um dia. A música acabou tirando outra coisa do álbum, porque precisava estar ali."

Ainda assim, até as músicas mais políticas de Harper sempre trataram de esperança, e a canção "I Believe In A Better Way" revela sua crença. "Sempre quis ficar do lado positivo independente da escuridão da hora", ele diz. "O fundamento de minha crença é baseado em uma melhor coexistência das espécies e é disso que essa música fala."

Texto originalmente publicado em: http://www.emi.com.br/artista.asp?a=384

Um dos mais belos filmes que vi nos últimos dois anos. Publico abaixo uma das melhores críticas que li sobre o mesmo:

LAVOURA ARCAICA

Lavoura Arcaica é uma belíssima poesia de 2 horas e 45 minutos de duração. Dirigido com magistral sensibilidade por Luiz Fernando Carvalho, este é um filme que consegue ser corajoso e inovador sem tornar-se hermético. Ao contrário: como toda boa poesia, ele permite várias leituras diferentes, apostando na inteligência do público, que é levado a fugir da postura de espectador passivo e a assumir uma atitude mais ativa, participativa.

Adaptação fiel do livro homônimo do paulista Raduan Nassar, Lavoura Arcaica gira em torno de André (Mello), que, esmagado pelos próprios impulsos sexuais e ambições de liberdade (condenados pela conservadora comunidade em que vive), mergulha em um implacável cotidiano de auto-flagelação espiritual, renegando a própria 'impureza', mas ciente, de alguma forma, de que tem o direito de exprimir seus desejos – o que o leva a fugir de casa. Aliás, o filme já começa com uma cena forte em que vemos o protagonista aparentemente se masturbando (digo 'aparentemente' porque, pouco mais tarde, descobrimos que ele também poderia estar sofrendo convulsões resultantes de um ataque epiléptico – o que já ilustra um dos temas do filme: a tríade 'prazer-pecado-castigo').

Para contar esta história, Luiz Fernando Carvalho utiliza sua câmera de maneira diligente, mergulhando na psique dos personagens e ilustrando o estado emocional em que estes se encontram (através de distorções na imagem, por exemplo). Ainda seguindo esta estratégia, o talentoso cineasta abusa dos closes fechadíssimos, como se procurasse investigar, através da proximidade com o rosto dos protagonistas, a própria alma destes. Além disso, Carvalho se revela um verdadeiro pintor, criando composições de quadro maravilhosas – sendo auxiliado, nesta tarefa, pela ótima fotografia de Walter Carvalho.

Apesar de seu ritmo pausado, calmo, Lavoura Arcaica jamais deixa de surpreender o espectador graças às inúmeras maneiras que encontra para expressar, através de imagens, todos os sentimentos e intensos conflitos morais/psicológicos experimentados por seu trágico herói. Um belo exemplo pode ser encontrado na cena em que o rapaz se entrega a uma prostituta: em primeiro plano, vemos a sensual e serpenteante fumaça de um cigarro que se queima, enquanto, ao fundo (e fora de foco), o casal de amantes se entrega ao sexo. A riqueza desta tomada impressiona por sua simplicidade, já que ilustra, simultaneamente, a ânsia sexual de André (o fogo do desejo) e seu castigo por fugir do que pregam seus valores (o fogo do inferno).

Até mesmo a paixão desmedida do protagonista pela Natureza revela-se, com o tempo (e logicamente), como um símbolo de sua própria natureza pessoal, de seus próprios impulsos – não é à toa que, embevecido pela visão da dança de Ana (Spoladore), ele tira os sapatos e mergulha os pés na terra fofa (gesto que se repete em diversas ocasiões). A metáfora de sua comunhão com a N(n)atureza, aliás, também é brilhantemente representada na seqüência em que vemos, em ações paralelas, o André-criança capturar uma pomba, enquanto o André-adolescente consuma sua obsessão por Ana (o que ocorre, apropriadamente, em um aposento cujas janelas são bloqueadas por grades). E concluir a representação deste ato sexual proibido com a forte imagem de um arado cortando impetuosamente a terra é a decisão perfeita. (Antes que alguém critique meu 'liberalismo' com relação ao incesto cometido pelo casal, devo dizer que, em minha opinião, este é meramente um recurso dramático que Nassar utilizou para frisar seu ponto de vista: massacrado pelo extremo da repressão, André obviamente se rebela através do extremo da profanidade).

Esta polarização entre liberdade e repressão, simbolizada pelo conflito Natureza-Religião, acaba resultando na cena mais importante de todo o filme, quando André, desesperado pela rejeição, profere um violento discurso em frente a um pequeno altar, postando-se entre a imagem de uma santa (Religião) e um vaso de flores (Natureza) – num retrato vivo de seu conflito interior (o mais interessante, no decorrer da cena, é observar o destino do vaso). Igualmente curiosa é a frase que o rapaz diz ao confrontar a amada: 'O teu amor, pra mim, é o princípio do mundo' – que também representa este dilema ao substituir a Gênese (Religião) por seu amor (Natureza).

Representações gráficas à parte, o fato é que o roteiro, escrito pelo próprio Luiz Fernando Carvalho, também conta com diálogos fortes e igualmente poéticos, como a explicação de André sobre a disposição, à mesa, dos membros de sua família ('O galho da direita era um desenvolvimento espontâneo do tronco, desde as raízes; já o da esquerda trazia o estigma de uma cicatriz, como se a mãe, que era por onde começava, fosse uma protuberância mórbida pela carga de afeto'). Destaca-se, também o amargurado confronto entre pai e filho que ocorre no ato final do filme – único momento em que o conflito é claramente vocalizado (e soberbamente interpretado por Selton Mello e Raul Cortez, numa cena repleta de cuspe e lágrimas).

Por incrível que pareça, até mesmo o título deste filme se presta a interpretações: no início da projeção (e no cartaz), ele é grafado como LavourArcaica, ou seja: entre a 'lavoura' (Natureza) e o 'arcaico' (o Conservadorismo, a Repressão), espreme-se o protagonista da história (cujo nome, André, se inicia com a letra 'a'). Talvez eu esteja apenas divagando, é verdade, mas Lavoura Arcaica é uma obra que nos obriga a refletir, que nos impele a estudá-la. E, como eu disse em meu artigo sobre o belo Magnólia, não é maravilhoso quando um filme nos provoca desta maneira?

Escrito por: Paulo Villaça

PUBLICADO ORIGINALMENTE EM:  http://www.cinemaemcena.com.br/crit_editor_filme.asp?cod=1536

Sem dúvida mergulhei em um dos melhores romances de idéias que já li. A leitura é envolvente, os personagens instigantes e sedutores por si próprios. O que se poderia esperar de uma estória que envolve Nietzsche, Breuer e Freud, senão um profundo envolvimento?

"Esta é uma envolvente mescla de fato e ficção, um drama de amor, fé e vontade tendo por pano de fundo o fermento intelectual da Viena do século XIX às vésperas do nascimento da psicanálise. Friedrich Nietzsche, o maior filósofo da Europa... Josef Breuer, um dos pais da psicanálise... um pacto secreto... um jovem médico interno de hospital chamado Sigmund Freud: esses elementos se combinam para criar a saga inesquecível de um relacionamento imaginário entre um extraordinário paciente e um terapeuta talentoso. Na abertura deste romance irresistível, a inatingível Lou Salomé roga a Breuer que ajude a tratar o desespero suicida de Nietzsche mediante sua experimental terapia através da conversa.

Ao aceitar relutante a tarefa, o eminente médico realiza uma grande descoberta: somente encarando seus próprios demônios internos poderá começar a ajudar seu paciente. Assim, dois homens brilhantes e enigmáticos mergulham nas profundezas de suas próprias obsessões românticas e descobrem o poder redentor da amizade."

Título: QUANDO NIETZCHE CHOROU

Autoria: Irvin D. Yalom

Editora Ediouro

Estou escrevendo embebida pelas letras poéticas e belas canções da banda TORANJA. Ainda pouco conhecida pelo público brasileiro, a banda portuguesa tem feito apresentações na companhia da banda carioca Los Hermanos em algumas capitais do país. Estou ainda surpresa com esse achado!

Vale a pena conhecer o trabalho desses lusitanos. Visitem o site oficial da banda: www.toranja.net/

LETRA DE MÚSICA:

Só Eu Sei Ver o Sol Nascer

Desfaz-se o tempo em rotinas e vontades
Em projetos e verdades
Em desgostos que se alastram
Em vestígios distorcidos
De nascentes que encontramos
E é sempre quando seca que
Tudo se tem que se agarrar
Tudo o que faz fugir
E a verdade passa a estar
No fundo dum copo cheio do que se quer ser
E a beata no chão que faz os olhos arder
É a nova moda das crianças que ainda estão a aprender
Como têm que estar e andar e beber
E dançar e comer e falar e ouvir
E sentar e sorrir pra saber existir aaaahhhhhh…

Só eu sei ver o sol nascer
Só eu sei ver o sol nascer...

Desfaço-me em pedaços, em retratos em…
Mentiras que trocamos e abraçamos sim
Fugimos mas voltamos
E o que presta, o que
Resta em nós…
Num fim de festa onde…
Todos sabemos quem somos
Ou quem não se quer lembrar
Ou quem precisa de estar
Perdido noutro sonho
A mesma noite, o mesmo copo,
O mesmo corpo, a mesma sede que não sabe secar
Onde se encontra sem se procurar
Onde se dança o que estiver a tocar
Muito fumo muito fogo muito escuro
Quando somos o que queremos
Quase somos o que queremos
Quase fomos o que queremos aaaaahhhhhhhh…

Só eu sei ver o sol nascer...

Quase fomos o que queremos
Quase somos o que queremos
Quase fomos o que queremos
Quase somos…

 Tela de Matisse

 

Despertando

 

E quando achava que por fim conseguira eliminar o que acreditava ser a razão de todas as suas dores e lágrimas, percebe que acreditar nisso havia sido um ledo engano. Um motivo é sempre substituído por outro, num ciclo sem fim, onde o combustível é nada mais, nada menos que seu eterno inconformismo, sua eterna vontade de mudar o mundo, sua cobrança pessoal por uma felicidade que não chega nunca! Já havia conseguido tudo o que um ser humano habitante de uma sociedade capitalista podia desejar...

Mauro cansou-se da vida regrada, com todos os seus dias previsíveis e planejados com meses de antecedência. Cansou de amar demais e ser amado de menos. Cansou dos esforços isolados de sua parte para manter seu relacionamento de pé, cansou de lutar sozinho. Sempre havia sonhado demais e agora se culpava por isso, se não visse a vida como um longa-metragem talvez as coisas pudessem soar um pouco mais naturais.

Mauro, não queria mais fazer planos, queria agora apenas se perder nesse não tão imenso mundo. Derramar-se em algum rio e diluir-se nele como um algodão doce no céu da boca. Desintegrar-se para depois rejuntar-se.

Abriu um mapa-mundi, tapou os olhos com os dedos e apontou aleatoriamente algum ponto do mapa. Ao abrir vê seu dedo apontando para a Índia. Sai de seu emprego sem marcar seu ponto; 4 horas antes do fim do expediente. Segue em direção ao aeroporto. Compra uma passagem só de ida para Bangladesh. Não fez malas. Quis ir apenas com o que vestia. Enquanto esperava a saída do vôo envia uma mensagem ao celular da sua esposa dizendo: “Saí para comprar cigarros. Até logo.”

Ninguém mais soube notícias de Mauro...

Tela de Salvador Dalí
CAPIM SECO, ASFALTO QUENTE.
 Poste e capim seco,
Asfalto quente, borbulhando,
Sapato apertado,
Calos nos dedos,
Nos bicos dos seios,
Macacos mamando,
Tarados, bichanos,
O povo acostumando,
Nariz-de-porco, cara de palhaço,
A rima enferrujada,
Áspera,
Quase teatro,
Do próprio poeta,
Sem graça, sem nada,
Tinta, papel e pena,
Solidão congelada apenas,
Respeitando as telhas,
A métrica,
Culpa do novo profeta,
Barbas longas,
Sem cueca,
Sem cultura, sem ensaio,
Engraçado,
Sou poeta, sou poeta,
Desastrado,
Sou poeta, sou poeta.


Ao desconhecido futuro ansioso...


Voltai! Voltai! Voltai!

Saudades de você, pele alva... Saudades de sentir-lhe o aroma suave e fresco como o da manhã. De tocar a pele branca como se tocando a lua. De passear entre os pêlos como quem afaga o prazer. De beijar os lábios como quem mata a sede antiga. De teu universo. De teu tudo. De você. Hoje, em afã, consigo ver-te com mais clareza e apego. Tu em verdade... A pele extremamente pálida... Morna... Traduzida em todas as cores, refletindo a minha imagem, o meu desejo, o meu calor. O rosto belo - simétrico e sensível - como naquele sonho de mancebo. Os olhos fartos, claros, delicados, como se presenteados pela mãe-terra. O além-mar... E as saudades abissais - ternas - de senti-la novamente; de ter o gosto teu; de teus pedaços deleitosos; doces e rosas ao paladar.

Desce um moto-contínuo: Saudades repetidas em saudades passadas. E como num saudoso porvir eu espero, te dedico e me exponho ao que orvalho por ti. Ao que doas, finalmente... Por que estás à terra. Viva e cheia de quereres. Por que estás na minha idade, cheia de vontades. Na minha fantasia. Na minha admiração. Em mim. Com teu corpo e tua alma. Com libido e amor. Com teu nome encravado no céu, na minha volúpia e em nosso suor. Saudades de você, pele alva... Assim...


Sismografado por !Dom ! 12:07 PM

Autoria de Paulo Rogério O. Silva

 Texto publicado originalmente em:

  http://www.amuiraquita.blogger.com.br/2005_04_01_archive.html

 

  Visitem o Blog do autor:

  http://www.amuiraquita.blogger.com.br/

 

 

tela de Pablo Picasso

 

Girassol no Azulejo

O travesseiro doce
Como pluma leve descança meu rosto
Me dá um esboço
De sono em encosto
E
quem enlear meu enlevo
Vai pecar em relevo
Uma
pena de desterro
Me deixe em paz!
O travesseiro doce
Como pernas de namorada
A preguiça engatada
No lençol do sossego
Girassol no azulejo
Que vejo oco
No sopro da brisa
Que sinto ao deitar
Bocejar
Fronha vermelha, cortejo
Da cor, descançar
Estar mais feliz
Um solo de banjo
A embalar-me um anjo
Entornando a ciesta
Até eu cochilar.

Tela de Salvador Dali -  A Persistência da Memória

 

Consciência 

 

Sentada em um canto à esquerda, numa poltrona vermelha da entrada do salão de beleza do bairro, estava uma senhora que aparentava uns 75 anos. Não haveria nada demais na sua presença ali, não fosse a expressão que carregava em sua face. Era um olhar tão introspectivo que parecia estar a sondar sua própria alma e ter descoberto há alguns instantes a fragilidade de sua vida. Adquirindo a partir daí um olhar de consciência de morte. Seu olhar despertava uma sensação de desamparo completo. Era como se implorasse que alguém a abraçasse imediatamente ou ela se desfaria em poeira ali mesmo. Segurava um pequeno caderninho onde trazia dentro uma nota de dez reais para pagar as horas passadas no salão e talvez alguns números de telefone importantes.

Chegou a sua vez, levantou-se e seguiu lentamente até a cadeira do cabeleireiro. Não era um andar lento por conta das dores típicas da idade. Eram passos temerosos. Com medo do minuto seguinte. Seu cabelo foi cortado como o recomendado ao cabeleireiro. Olhou o resultado no espelho com indiferença. Pagou o que devia e saiu com passos lentos e olhar distante.  Ninguém percebeu sua tristeza, sua introspecção. Todos estavam muito distraídos com os programas de TV e com as últimas notícias dos artistas famosos.

Marta... assim ela era chamada. Morava sozinha há cinco anos, desde a morte de seu esposo. Os filhos a haviam deixado há muito e quase não ligavam. Sentia falta de ouvir alguém contando os acontecimentos do dia, do barulho de chaves na porta anunciando a chegada de alguém querido, de risadas pela sala em frente à TV, de cantorias no chuveiro por mais desafinadas que fossem. Sentia falta de existir, pois há muito se sentia morta. Perdida em uma ilha. Marta estava cansada. Cansada das paredes brancas de sua casa, cansada de receber ligações apenas em datas comemorativas, cansada de sua própria resignação. Marta queria dormir, mas nem isso conseguia. Achou que não deveria mais ficar tanto tempo acordada, suas únicas horas de sossego vinham nas horas de sono. Queria eternizar essas horas de paz. Cortou o cabelo, perfumou-se, olhou-se no espelho, não gostou do que viu. Ansiava por seu sono. Tomou os comprimidos do vidro com tarja preta há tempos prescritos pelo médico e deitou-se. O sono vinha embebendo seu corpo como em um mergulho em águas doces e calmas. Um sorriso calmo lhe veio aos lábios e adormeceu para a noite mais longa de sua vida.

  

   Tela de Salvador Dalí 

 

Só...solidão


Gélidas, gélidas fervuras
Sólidas frescuras
Nos ares frescos da solidão
Só lhe dão solidão
Só lhe dão
Que seja ela ventura
Que seja ela uma mão
Fazendo dela mais dura
E de todo o bom sim
O bom não
E quando você acredita
Nas pessoas em que você confia
Só lhe dão solidão
Só lhe dão
Ainda não é a hora
Só solidão
E que eles te dão agora?
Só solidão, só solidão
E quando você precisa de atenção?
Só lhe dão solidão
Se você ama alguém?
Só lhe dão solidão
Solidão só lhe dão
E a minha resposta
Só me dão solidão
Só, só me dão
So... solidão.

Tela de Chagall

 

Historinha medieval

 

Eu precisava de uma resposta. E me parecia que ninguém aqui de nosso convívio poderia dá-la. E olha que procurei nas mentes mais sábias de nossos tempos. Sem sucesso. Decidi procurar um velho amigo. Sabia que ele tinha uma antiga máquina do tempo em algum lugar de seu porão. Depois de alguns ajustes, ela estava como nova, pronta pro uso.

Voltei à Inglaterra do século XVII. William Shakespeare estava em seu período mais fértil, e era dele que eu precisava. O bardo inglês, o maior autor de teatro de todos os tempos, a maior autoridade que se pode querer nos assuntos da alma. Ao encontrá-lo, perguntei:  

- William, porque tantas dúvidas, tantos porquês fora de hora, o que fazer pra mudar isso?  

O bardo, com um sorriso de canto de boca, me disse:  

- Nossas dúvidas são traidoras, e nos fazem perder o que com freqüência poderíamos ganhar. Por simples medo de arriscar.  

Disse isso e voltou pros seus afazeres. Me satisfiz com a resposta. Mas precisava de mais. Precisava de um filósofo pra me sanar outros problemas. Voltei aos tempos anteriores à Cristo, mais exatamente na cidade de Atenas, na Grécia. Encontrei Platão na sombra de uma árvore. Era ele que eu procurava, o maior filósofo da história, o inventor do ócio criativo, o senhor dos amores impossíveis. Sem nem dizer bom dia, disparei:  

- Mestre, me dê uma luz, consideras um erro seguir seus próprios instintos ao invés de se prender à compromissos assumidos?  

Sem desviar seus olhos pra me fitar, ele proferiu:  

- Segundo o ditado popular, só os juramentos de amor permitem os deuses que sejam impunemente quebrados, pois juras de amor não são juramentos.  

Ele não parecia disposto a dizer mais nada. Nem eu precisava ouvir mais nada. Me sentia melhor agora que tinha o aval de dois mestres do pensamento mundial. Mas, claro, não poderia ficar sem a opinião de um gênio de nossos tempos. Voltei à 2003. Olhei pro céu, com os olhos da cara e os da alma, e gritei:  

- Renato!! Renato Russooooo!! Me diz o que é o pecado então?  

Sua voz profunda, como a de um messias, ecoou no espaço:  

- Pecado é provocar desejo e depois renunciar

 Então tá bom.

 

 Autoria de Luis Felipe Pereira de Carvalho

(Meu amigo querido - o Jahba)

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Os meus vinte anos

Andei petrificado. Foi tão difícil que acabei petrificado. Um amor, doente, um sonho, desfeito, uma luta cheia de derrotas, como a de um brasileiro qualquer. Eu fiz o que qualquer um faria, e achei, no olho do furacão, uma maneira de me espiritualizar. Ela me entregou uma promessa, que consistia em não abandonar a serenidade, e, na prática, consistiu em não chorar, ou melhor, em eleger aquele recém-findo choro piagetiano o último. Medita daqui, medita dali, anda pelado, respira pelo nariz, e essa vida machucando, dando chute no meu joelho, me minando aos poucos. E eu fiz como o solteirão londrino que acha que o homem é uma ilha. Segui viagem, e estive alheio às sensações. O preço disso é estar alheio às sensações saborosas. Me deu sede.

 

Vivamos,

Olha aí meus vinte anos!

 

Eu preciso de dias especiais. Me deu medo. Sair de minha ilha era prestar algumas contas, e eu sentia-me como um grande endividado na frente de seu credor, que no meu caso era a vida. Era o amor. Tive vergonha, e não há paz quando se tem vergonha do amor. Meus vinte anos, eu sabia, não teriam alguns sonhos, como um passeio pelos oceanos, uma viagem à França, um sucesso teatral ou um jardim pra minha mãe brincar. Mas eu acabei achando que meus vinte anos precisariam pagar as tais dívidas. Libertar algumas coisas de cá de dentro. E isso me faria, entre outras coisas, chorar. Então eu tentei driblar, evitei ler poesias marcadas, não quis dormir muito tarde, relutei em ver minha banda preferida, não quis encontrar amigos antigos. Mas dei inapelavelmente de cara com o destino, e era meu amor, doente, o mesmo do início dos meus vinte anos. O mesmo, mas alguma coisa que foge do meu olhar era novo. E ninguém sabe, mas eu já tenho 21 anos desde aquela noite.  

 

Autoria de Leandro Pereira (o Bill)

Publicação Original em: http://monolitos.zip.net/index.html

Em: 07/10/2005

 

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Devaneios
 
               A vida muitas vezes nos deixa atordoados com sua complexidade. Existem idéias demais, coisas demais, pessoas demais, caminhos demais a seguir... Perder as rédeas não é algo tão difícil de acontecer. Nem sempre conseguimos reduzir o mundo a um tamanho administrável. Isso implica em resumir objetivos e planos, fazer cortes, aparar arestas. 
               É difícil ser econômico quando se trata da própria vida. Poucos estão dispostos a isso para tentar chegar a um ponto de equilíbrio. Limitar-se é algo que vai contra a natureza humana, que tem sua essência repleta de inquietude e inconformismo e isso, de fato, não é ruim. Essa é a chama que impulsiona as mudanças, as revoluções, as novas criações. É o que aguça a inteligência.         
               Alguns, pelas razões mais variadas possíveis, perdem essa chama e vivem num eterno comodismo, a sonhar com algo extraordinário e inspirador. Algo que lhe deixe apaixonadamente embriagado, algo pelo qual arriscariam tudo! Uma meta, capaz de encher de vida até as mentes mais inóspitas...mas, poucos saem de suas penumbras para viver de verdade e vivem esperando que esse "algo" poderoso e inebriante apareça ou aconteça.                                                                    
               Devemos ao menos tentar dar um pouquinho de razão aos nossos dias. Fazer desaparecer a sensação de tédio e solidão. O mundo tem tantas coisas para ver e aprender que o tempo de vida que temos parece injusto. E ainda perdemos tempo com a solidão! Perdemos tempo sofrendo por coisas que não valem a pena...tendo medo de arriscar coisas novas, de fazer diferente. Perdemos tempo planejando uma vida de rotinas e temendo frustrações.
               Enfim...devemos viver com paixão! Buscar realizar nossas metas, e se ainda não há metas, criá-las. O tempo está passando e talvez chegue o dia em que vamos parar de achar que temos todo o tempo do mundo. Viver...de tal forma que ao fim possamos ter a sensação de que a vida valeu a pena. Viver...para deixar histórias para as próximas gerações. De certa forma, quando deixamos marcas, adquirimos algo próximo da imortalidade.

A DISTANCIA ENTRE OS SEGUNDOS


Alimentando ao pensamento com o tempo
Ao tempo a distância entre os segundos
Em segundos os tormentos em que enfrento
Pequenos momentos cercados por muros

A alegria, o dirsfarce, a esperança ao vento
Um zumbido no mastro da abobada é turvo
Infinito se faz ao entendimento
Nos mares de lava é mais perto e seguro

Na razão quase nua me foge a pujança
Da agonia guardada no roer dos ponteiros
Dos segundos passados sobra a lembrança
Da distância embaçada que se lança primeiro

Não por escolha se percorre a distância
Mas o tempo que leva me abarca inteiro
Covardemente opõe-se a honesta tardança
Perdendo o sustento e me levando enfermo

A distância entre os segundos
Diverte-se ao tom da própria saga
Gargalhadase faz então com lágrimas
Na maldita inércia que nunca acaba.

Tela de Chagall

 

Que eu seja Poeira

 

A física moderna subestimou um pequeno fato. Não é necessário estar viajando a velocidade da luz ou rodeando cordas cósmicas para voltar alguns minutos no tempo. Dependendo da situação, não é necessário sequer estar com os pés fora da terra para tal façanha. O passado vem como uma tempestade de areia, aonde os milhões de grãos vão colidindo em sua pele provocando pequenos choques elétricos, inundando seus olhos e cegando-os por uns instantes. Isso pode vir à tona por um perfume, um bilhete que estava perdido dentro de um livro, um ingresso de uma velha sessão de cinema dentro da carteira, um abraço, uma canção... Esse retorno pode ser um paraíso ou um caos... se o caos não vier do devaneio no tempo, se dará na volta ao presente. O retorno à data real pode ser um choque... Bento de lágrimas como na canção dos barbudos, desfazendo qualquer fortaleza. E ninguém quer ver suas fortalezas tão arduamente construídas irem ao chão em frações de segundos. Voltar ao passado pode não ser um bom negócio. A possibilidade de viajar inteiro e voltar em fragmentos é fatídica. Como se fosse um passeio por dentro de um grande buraco negro que decompõe tudo que nele adentra e cospe em seguida transformado em poeira espacial. Malditas lembranças. Benditas lembranças. Redemoinhos... Quero ser poeira cósmica.

 

Flávia Matos...

 

 

P.S: Queria deixar registrado aqui um texto que me encantou muito ontem. Foi quase uma leitura de pensamentos depositada em palavras, transformados em inspiração poética:

 

O (re-re-re) encontro

Eu poderia fazer diferente. Ter dito coisas absurdas que fariam você ir pra casa pensando, ter tomado atitudes drásticas que te assustariam e te deixariam a mercê de seus incontroláveis sentimentos, ter feito qualquer outra coisa que impedisse de acontecer o que aconteceu. Mas o que foi que aconteceu? O que não foi não é, é isso? Então porque era, e não foi? Foi porque eu fiz as coisas que fiz? Mas o que foi que eu fiz? Mesmo assim, eu não me arrependo. Não queria me desapontar, e fiz tudo que pedi pra mim mesmo, fiz tudo que me prometi fazer. E eu sabia que estava errado. A maior expressão da angústia é a depressão ao que se pressente? Mas o que foi que eu pressenti? Eu realmente não sei me definir como otimista ou pessimista. Eu pressenti com pessimismo, mas segui otimista, de olhos bem fechados aos sinais. E agora a estrada não tem mais aquele sol. Chove forte. A chuva cai como uma luva? A luva cai como a verdade? A verdade liberta? Olhando nosso retrato, vejo que só a verdade pode inverter o que nós somos. E só a verdade pode me provar que o amor é mesmo algo incondicional. Vou me dar uma bela bronca se não seguir amando. Os homens matam mesmo aquilo que amam? Seria eu, então, o assassino? Seria, então, de toda forma, minha culpa? Então não tenha medo, pode falar o que for pra falar que a culpa é minha mesmo, e o amor será incondicional mesmo. Só quero que saiba que não sei como vai ser quando eu descer dessas nuvens carregadas de história nossa e tocar de novo o chão, e sugiro que você me ajude nessa. Eu vou voltar praquele lugar onde a gente se encontrou. E vai ser interessante. Sei que vou encontrar um garotinho magrelo e míope andando pelas ruelas de paralelepípedos. E, mais uma vez, encontrarei meus próprios erros. Os mesmíssimos erros de sempre, desde que eu nasci. E que eu amo, incondicionalmente. 

 

Autoria de Leandro Pereira (o Bill)

Publicado originalmente em: http://monolitos.zip.net/arch2005-03-13_2005-03-19.html




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